Um texto retirado do blog camp nou do jornal record,que por sua vez foi escrito por Guardiola.
"Atrai-me a vitória e dou conta de que o
caminho que mais nos aproxima dela é o protagonismo. Jamais pensaria um desafio
sem jogar no meio-campo do adversário." Frase maravilhosa de Marcelo Bielsa que
o Barcelona fez sua há mais de uma década. Em Barcelona entende-se que é
possível ganhar de mil maneiras. Todas válidas. Todas servem. E mais houvesse.
Mas em Barcelona também se entende que jamais se pode ganhar e voltar a ganhar
de uma forma que não seja sentida. Pelos directores, treinadores, jogadores,
amigos, imprensa, pelas pessoas que todas as semanas vão ao jogo.
Acredito que os jogadores do Barça sentem isto assim.
Sentem-no mesmo, porque muitos deles viram os seus antepassados mais próximos
fazê-lo. Sentem-no porque os viram fazer e ganhar (como as vitórias reforçam as
convicções!) e porque sabem que como isso já foi feito, é possível voltar a
fazê-lo. Se não o sentissem assim, ganhariam na mesma. Mas apenas um dia. Não o
fariam durante tanto tempo. Não se pode passar de jogar com uma linha defensiva
de quatro para três - e digo três, não cinco - e fazê-lo com toda a normalidade.
E fazê-lo bem. E ganhar. E estar nas meias-finais da Taça.
Posso estar enganado, mas é isto que vejo:
eles gostam de se organizar através da bola. A atacar e a defender desta forma
não entendem que a bola não pode estar aqui e nós ali. Que a bola não pode estar
em cima e nós em baixo. Sentem que em vez de correrem muito até onde está a
bola, acabará por ser ela a chegar onde eles estão. Sentem que os atacantes para
triunfarem e saírem nas capas dos jornais precisam de bons passes dos médios e
estes, para poderem fazê-lo, precisam de uma boa bola dos seus defesas. Eu
passo-a a ti e tu passas a eles. Ronaldinho sabe que é melhor com Eto'o e Eto'o
sabe que é melhor com Ronaldinho. Têm as suas coisas, mas juntos são melhores do
que sozinhos. Insistem em saber onde está o homem livre a cada momento do jogo.
E sabem que é melhor esse homem livre ser Iniesta do que um lateral. Sabem que
Xavi e Iniesta são compatíveis. E, já agora, porque raio não haveriam de ser?
Entendem, como todo o bom jogo colectivo, que quando se começa pela direita, o
melhor é acabar pela esquerda. E que um passe para trás não significa medo, mas
antes o início de outra jogada melhor. Sentem que a oportunidade acabará por
chegar e que a posse de bola em si mesma não é nada, a não ser algo para chegar
ao golo. Que aos extremos é melhor que a bola chegue desde o centro do que
desde as laterais. E que se jogam os três pequenos (Deco-Xavi-Iniesta), como em
Saragoça, os canteranos devem ocupar-se da criação e da elaboração do jogo, e
Deco da finalização. Sentem que se tivermos de jogar com apenas três atrás,
assim será. Mas esses três terão de ter as pernas de Puyol e Oleguer. E também
sabem que têm o melhor jogador do Mundo, ou quase, e o melhor goleador do Mundo,
ou quase, e que se falamos de saber jogar futebol, não de resolver partidas,
repito, de saber jogar futebol, temos os melhores médios-centro do Mundo. Mas
todos estes melhor ou quase, noutro enquadramento só representariam o "quase".
Não teriam hipótese de ser o "melhor". E eles sabem-nos. Ou pelo menos
sentem-no.
É isso que penso.
E mesmo assim, às vezes, também perdem.
Perdem por falta de vontade. Por não terem suado a camisola ou por serem
"peseteros". Ou porque ultimamente têm comido muito e bem. E já não têm tanta
fome. Sim, também perdem por estas razões. Como todas as equipas do Mundo. Mas
também perdem porque, às vezes, Xavi ou Deco ou Iniesta vão roubar a bola aos
centrais quando era melhor que não fossem. Ou porque a bola que começa pela
direita acaba por voltar à direita. Ou porque o terceiro homem da defesa é pouco
utilizado. Ou porque Ronaldinho tem que receber mais bolas de Márquez e menos de
Sylvinho. Ou porque a transição ataque-defesa se faz de forma cada vez mais
lenta. Ou porque falta Eto'o. Ou seja lá porque razão for. Mas perdem. E perdem
ainda por outras coisas que só eles sabem e têm que saber. Uns porque nasceram
aqui e assim foram educados. Outros porque não lhes resta outro remédio que não
seja aprender.
Amanhã o Barça irá perder. Ou depois de
amanhã. Acontece a todos. Mas ninguém pode negar que há muito tempo que o Barça
é uma equipa reconhecível, com identidade. Ninguém pode negar isso. Nem uma
única pessoa.
E sabem como isso me agrada.
Algumas horas antes do jogo com o Saragoça,
Iniesta mandou uma mensagem ao meu irmão. O meu irmão renviou-a para mim. Dizia:
"O dream team está de volta. Vou jogar." Dá para sentir ou não como
eles adoram esta maravilhosa profissão que é ser jogador de futebol?
Têm alguma dúvida sobre a forma mais indicada
para derrotar os Beatles?
Passam? São eliminados? Não duvidem das
palavras de Bielsa.
Texto publicado a 2 de março de 2007. Quatro
dias depois (6 de março), o Barcelona jogou e venceu por 1-0 em Liverpool. Foi
eliminado, porque precisava de mais um golo (tinha perdido no Camp Nou, a 21 de
fevereiro, na primeira mão da Champions, por 1-2). Mas jogou e venceu, em
Inglaterra, tal como Guardiola tinha sugerido: em 3x4x3 (Valdés; Puyol, Thuram e
Oleguer; Marquéz, Xavi, Iniesta e Deco; Messi, Eto'o e Ronaldinho). O mesmo
sistema que recuperou para o Barcelona na última segunda-feira, na goleada de
5-0 ao Villarreal. Em Março de 2007 Guardiola já tinha terminado a carreira de
jogador, mas ainda não era treinador. Só cinco meses depois se viria a estrear,
então ao comando Barcelona B.